Índios pataxós aderem ao cartão de crédito

Quando o assunto é forma de pagamento, o cartão dispara na liderança, atingindo todas as classes sociais e todos os tipos de estabelecimento. Graças à tecnologia sem fio, que funciona via celular, trabalhadores autônomos passaram a utilizar as máquinas de cartão de crédito e débito para garantir ou incrementar as suas vendas. Na Bahia, depois dos ambulantes, feirantes e baianas de acarajé, quem também se rendeu ao “dinheiro de plástico” foram os 150 índios da aldeia Pataxó, localizada na Reserva da Jaqueira, em Porto Seguro, que desde dezembro aceitam o cartão de débito Visa como forma de pagamento na venda de artesanato.

Além de aumentar em até 60% as vendas, o cartão diminui o risco de calote – porque o comerciante não precisa mais vender fiado –, reduz o risco de perder o freguês que não tem dinheiro vivo na mão e ainda traz segurança para ambas as partes. De acordo com o diretor comercial regional da VisaNet, Fábio Camarotti, esses foram os principais argumentos utilizados pela administradora para convencer os Pataxós a aceitarem o meio eletrônico como forma de pagamento. “A gente detectou que havia oferta uma vez que a maior parte dos visitantes da Reserva da Jaqueira é de turistas”, diz, informando que já faz algum tempo que a administradora vem captando comerciantes de mercados alternativos.

Aceitação – Segundo a presidente da Associação Pataxós de Ecoturismo, a índia Mitynawã, apesar dos inúmeros benefícios apresentados pela VisaNet, tanto para os índios quanto para os consumidores, não foi fácil convencer a tribo a aceitar o “dinheiro de plástico”.

“Para o índio que nasceu e cresceu na mata, como a minha mãe, por exemplo, é difícil entender como funciona o cartão. Mas, por mais que a gente preserve a nossa cultura, precisamos evoluir e aumentar as nossas vendas”, destaca ela, acrescentando que a Reserva da Jaqueira reúne hoje 32 famílias, que vivem basicamente da venda dos artesanatos produzidos pelos próprios índios.

Mitynawã diz que, antes da inserção do cartão na rotina dos Pataxós, as vendas giravam em torno de R$500 por dia, isso num dia de movimento bom. Agora, esse número saltou para aproximadamente R$1 mil, ou seja, o meio eletrônico proporcionou um crescimento de 50% nas vendas. “Muita gente que nos visitava não levava dinheiro porque não sabia que vendíamos artesanato. Agora, o Visa colocou umas plaquinhas indicando que vendemos artesanatos com o cartão de débito”, ressalta a índia, complementando que o Visa também é aceito para pagar o ingresso para a visitação da Reserva da Jaqueira, que custa R$35 por pessoa.

Para usufruir da praticidade do “dinheiro de plástico” e aposentar a velha caderneta de fiados, a aldeia Pataxó precisou fundar uma organização, que é a Associação Pataxó de Ecoturismo, para receber o dinheiro, via conta bancária, dos que optam pagar com o cartão de débito Visa. “Como nós não somos assalariados, não tínhamos conta em banco”, ressalta Mitynawã, informando que todo o dinheiro arrecadado é dividido entre as 32 famílias da aldeia. Apesar de ser mais uma opção de pagamento para os visitantes da Reserva da Jaqueira, a novidade não gera divergências de opiniões somente na tribo. “Muitos clientes gostam da iniciativa, mas muitos criticam. Alguns chegam até a perguntar: ‘Índio também usa isso?”’, revela ela, finalizando: “Não é o cartão que vai deixar que a gente deixe de ser ou não pataxó. A nossa origem está no nosso sangue”. (GA)

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Passeio na reserva leva três horas

Situada no município de Porto Seguro, numa área de 827 hectares de mata atlântica, a Reserva da Jaqueira ocupa terras habitadas pelos índios pataxós no passado. Considerado um local sagrado para os índios, a reserva hoje é utilizada para a valorização da cultura pataxó. Os interessados em conhecer de perto um pouco mais desta rica cultura indígena podem visitar a área, tombada pelo Patrimônio Histórico Nacional em 1973 e aberta ao público no final de 1999.

Após pagar uma taxa de R$35, o visitante adentra o portão e logo é recebido por um pataxó, que faz o papel de guia durante todo o passeio, com duração de três horas. Após o ritual de boas-vindas, o turista assiste a uma pequena palestra sobre a história pataxó. Em seguida, faz uma caminhada nas trilhas da mata, que incluem até armadilhas. Informações sobre a fauna e a flora da região também fazem parte do passeio, além da degustação de pratos típicos da aldeia, como o peixe feito na folha da patioba. (GA)

Fonte: Correio da Bahia